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Subnutridos que Passam Fome
por Gustavo Rodriguez


E mais uma vez descobriram o óbvio. Ah, esses cientistas. Um grupo deles agora afirma ter descoberto que "boa parte do comportamento anti-social se deve simplesmente à má nutrição". Até aí, nada de muito surpreendente. O interessante mesmo, conforme revelou o Folha Ciência de 18/11/2002, é que a comunidade científica não está acreditando no estudo: "Trata-se de uma afirmação ousada, recebida com ceticismo".

Realmente, muitos não acreditam que a fome, por si só, conduza o ser humano à violência. A matéria não chega à minúcia de dizer quais foram os cientistas que receberam a afirmação com desconfiança, mas imagino que sejam os mesmos que corroboram a convicção do atual presidente, para quem no Brasil não há fome, apenas “casos de subnutrição”.

Como se o subnutrido, subnutrido que é, não passasse fome. Ora, se não passasse fome, não seria subnutrido! Trata-se de mero exercício de retórica, coisa de honnoris causa. Claro que também existem aqueles que não passam mais fome no Brasil pós-real. É também cientificamente comprovado (não pela mesma pesquisa) que após certo tempo sem comer a fome - sintoma de um estado de subnutrição - simplesmente desaparece, secunda-lhe, em instantes, a morte.

O estudo do Natural Justice, citado pela Folha, prova por a+b que uma boa dose de vitaminas, minerais e ácidos graxos podem diminuir significativamente os casos de violência, sendo até interessante citar a metodologia: foi acompanhado o comportamento de 231 internos de uma instituição para agressores juvenis na cidade de Aylesbury, monitorando-se, paralelamente, o número de queixas de mau comportamento feito pelos carcereiros. Consta que "metade dos reclusos tomou doses diárias de 28 vitaminas, minerais e ácidos graxos. O restante recebeu pílulas de placebo (medicamento inócuo)". Fiquei me perguntando o que seria o tal do placebo. Teste injusto. Para alguns gostosas vitaminas, suculentos ácidos graxos, apetitosos minerais, e para outros placebo?

O resultado do teste? 37 mortos e 15 feridos após a rebelião. Brincadeira: "O resultado foi um assombro: internos que receberam o suplemento alimentar cometeram 37% menos agressões que o grupo do placebo. Quando o teste terminou, os níveis de violência voltaram ao normal".

Não sei não, mas ainda acho que pode ter sido tudo culpa do placebo. Seria ele realmente inócuo? Respostas para gustavo-rodriguez@bol.com.br.


Agora falando sério. É mais do que óbvio que a fome produz violência. Tão óbvio quanto o fato de que não é a única, nem a maior das causas deste mal social. Não se pode dizer que a tal da Suzane matou os pais por qualquer razão alimentar; Fernandinho Beira Mar não fulminou dois, por telefone, para consegui uma refeição decente na cadeia; Hildebrando Paschoal (lembram dele?) não serrou um capitão da polícia militar pra sair de um estado de anemia aguda e por aí vai...o maluco de Washington não matou por um BigMac (embora outros o façam); George Bush não vai matar 200.000 pessoas - provavelmente antes do ano novo - para saciar a fome do povo americano; os judeus não estão gradativamente se tornando piores que seus algozes nazistas pelas necessidades físicas de seu povo...

Ódio, cobiça, instintos primitivos, ciúme, loucura, vingança, e até motivos considerados mais "nobres", como a fé, e o próprio amor, podem ser arrolados como origens da violência. Até aí tudo bem, mas neste rol deve se reservar lugar de destaque para a FOME, com todos os seus éfes, ós, emes, e es. Se não, me respondam como é possível ser paciente, tolerante e compreensivo, de barriga vazia? Como é possível manter a dignidade, a honestidade e o caráter, sem ter o corpo – e conseqüentemente a mente - em perfeito estado de funcionamento?

O dizer de um bacana do Bolsa-Escola que a fome se resolve através da educação é, senão má-fé, muita hipocrisia mesmo, pois não é preciso nenhum estudo cientifico para se saber que a fome, ou a subnutrição (como queiram os que se encontram com a pança cheia) se resolve é com COMIDA. E não precisa ser o caviar do (atual) presidente não.


Estou dentre os brasileiros que confiam no Presidente eleito. Seu programa para acabar com a fome é empolgante, animador, um bálsamo frente a tantas barbalhidades (será que alguém ainda vai reconhecer o trocadilho?) que proliferam em nossa pátria amada mãe gentil.

Sei que muitos criticam e criticarão o programa. Uns com menos razões que outros, e vários por puro oportunismo, como já está acontecendo. Sei também que existe o programa Renda Mínima, do impecável senador Eduardo Suplicy, de quem sou fã incondicional, e que algumas pessoas poderão se sentir ultrajadas ao receber um vale-comida ao invés do dinheiro - precisamente as mais nutridas - mas a questão não é esta.

O negócio agora, a meu ver, é fazermos (percebam como me sinto parte integrante do projeto) o que está ao alcance, ajudando a maior quantidade de pessoas possível. Até hoje neste país, poucos foram tratados com muito, muitos foram tratados com pouco, e milhares foram tratados com nada. Vários outros, ainda, foram até muito maltratados (índios, minorias etc...).

Pensem por favor: temos agora um Presidente da República dizendo que seu principal projeto é acabar com a fome, e vamos ficar cada um querendo impor sua frescura particular? É verdade - e eu não uso esta palavra à toa - que o melhor seria mesmo dar direto o dinheiro e a pessoa a comprar comida, ou aquilo que necessitar, e que melhor que isso ainda, seria garantir emprego decente e salário digno para todos. Só que isso, no momento - some-se as restrições orçamentárias, as exigências do FMI, o bocejar da Inflação, a oposição sorrateira da bancada do ódio (PFL e sequazes), etc, e se terá uma noção do porquê - é impossível, simplesmente impossível.

E que gente como aquele Paulinho da Força Sindical, o Bournhausen, o Zé Aníbal, e os demais mau-perdedores se insurjam contra a alvissareira iniciativa, isso não me espanta nem um pouco. O que me deixa perplexo e indignado é que gente do quilate da Dona Zilda Arns, que sabe das mazelas deste povo como ninguém, imponha restrições ao programa por causa da forma de distribuição das indispensáveis vitaminas, minerais, e ácidos graxos - se em dinheiro ou através de cartões magnéticos - fornecendo com isso valiosa munição para que estes seres felpudos, que proliferam país afora, ataquem a inatacável proposta.

Com todo respeito, Dona Zilda, mas para os 50.000.000 de subnutridos que passam fome, tanto faz a forma como chega, o importante é comida na mesa. O resto, embora indispensável, vem depois.  

Texto elaborado por:
Gustavo Rodriguez
gustavo-rodriguez@bol.com.br

Publicado neste site em 05/12/2002

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